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OPINIÃO: A cura gay e o paradoxo da homofobia

Recentemente um Juiz Federal concedeu uma liminar a três psicólogos, suspendendo as diretrizes da Resolução nº 001/1990 do Conselho Federal de Psicologia (CFP), permitindo a atuação profissional no tocante à “reversão sexual”, ou a popularmente conhecida como cura gay. A qual refere-se à prática pseudocientífica de tentar mudar a orientação sexual de um indivíduo usando intervenções psicológicas ou espirituais. Essa liminar deu o que falar, é claro, pois quando se trata de homossexualidade muitas pessoas tem uma opinião formada na ponta da língua, prontamente preparadas para qualquer oportunidade onde surja o assunto.

 

A decisão do magistrado e a intenção dos psicólogos, que entraram com o processo, estão alinhadas com uma perspectiva científica e cultural que há muito fora abandonada, a conhecida visão mecanicista, instaurada por exímios cientistas como Isaac Newton e René Descartes. Como Psicanalista e eterno estudioso das ciências psicológicas e filosóficas, eu posso afirmar categoricamente que tanto o pedido como a liminar é de uma excepcional irresponsabilidade. Definitivamente não há para isso nenhum embasamento científico e moral. Uma tentativa fútil de retrocesso ético-profissional e científico.

 

O que as ciências já conquistaram com seus anos de pesquisas e observações afirmam justamente o contrario do que faz entender essa liminar e as opiniões de seus apoiadores. A homossexualidade é um aspecto não só de seres humanos, mas dos mais diversos tipos de seres que habitam nosso planeta.

 

Os estudos realizados em diferentes áreas da ciência já concluíram, há muito, que a homossexualidade tem causas variadas e sempre esteve presente em toda a história da humanidade, sendo ela, portanto, um aspecto normal do ser humano que não causa incapacidade física, psicológica e social. E, sendo redundante, não causa incapacidade afetiva!  O que faz do Gay um ser humano pleno e capacitado para desfrutar de todas as suas faculdades vitais, experiências e competências que queira assumir na sua vida.

 

O que sempre torna isso um problema é quando a cultura decide banir esse comportamento da sociedade, normalmente baseando-se em postulados de algumas linhas religiosas que decidem não aceitar o comportamento. Mas como não é a natureza que se adequa ao homem, e sim, o homem que se adequa a natureza, esse tipo de cultura fica dando murro em ponta de faca. Trazendo não só sofrimento para o homossexual, mas sim, também para a sociedade como um todo.

 

A orientação sexual, seja qual for, não torna nenhuma pessoa incapaz de amar e viver normalmente. O aparente problema surge quando outras pessoas decidem impor suas crenças e frustrações sobre eles. Nada atrapalha mais a vida de um homossexual do que os constantes julgamentos que recebem diariamente, dependendo do seu meio social. Ou seja, a tal doença não está nessas pessoas, está em nós, a sociedade, que não sei o porquê, gosta de querer controlar de quem devemos gostar, até o que devemos, ou não, fazer em nossos momentos de privacidade intima.

 

As linhas de pensamento popular, apesar dos “politicamente corretos” (ou tentativas fatídica de dar razão ao preconceito de forma elegante e educada), são todas baseadas na crença de que homossexualidade é perversão, quer dizer, o que está por traz de todos os discursos de não aceitação é a ideia de que Gay’s são pessoas pervertidas. Agora o porquê? Não sei... Pergunte a elas.

 

Lembro-me de uma situação, quando eu era jovem, onde havia um amigo que se incomodava fortemente quando via ou quando ficava na presença de um Gay. Certa feita, o interroguei a respeito das suas reações e as justificativas dadas foram bastante comuns:

- É falta de vergonha; - Homem beijando homem é nojento; - Homem foi feito pra fazer as coisas com mulher e não outro homem.

 

Nesse momento percebi que meu amigo pensava em coisas que eu ainda não havia pensado, então respondi com uma pergunta: - Todas as pessoas que você vê... Você as imagina beijando, transando e como fazem isso?

- Não! (Disse ele, de maneira muito pensativa).

 

Ele imaginou, quando viu um jovem de aparência sugestiva sentado em uma mesa, e que por ser de meu conhecimento, esse jovem, tinha comigo toda reputação de ser uma pessoa integra e moral, não estava abaixo de ninguém no tocante a inteligência, educação e humildade.

Entendeu o paradoxo?

 

No dicionário, doença significa alteração do estado de saúde (espiritual, mental, moral, emocional etc.) que gera abatimento, desânimo, tristeza, depressão. Bem... No caso contado quem apresentou um mínimo de alteração foi meu amigo, ele sim aparentou sofrimento. Já o rapaz da mesa estava bem, conversando e brincando com amigos.

 

Uma questão exposta a mim, sobre a liminar, foi sobre o homossexualismo causado por traumas e/ou influencias externas. Mesmo que uma pessoa tenha relações homoafetivas ocasionadas por traumas de infância, não faz da “técnica de reversão sexual” algo digno de valia. Nesse contexto, a homossexualidade se apresenta como sintoma de um comportamento de repetição do trauma.

 

O que faz do trauma o agente da doença, nada tem haver aqui uma intervenção com o intento de cura gay. Posso acrescentar, também, que uma pessoa que procura ajuda profissional com um problema desses, ela já sabe qual é a verdadeira opção sexual dela, não precisa ser reorientada. A técnica funcional aplicada aqui é a mesma de todo profissional, terapia normal. Curar traumas e fortalecer a integralidade do nosso ego, da essência do nosso EU.

 

Um grande perigo mora nessa proposta em que o Psicólogo pode reverter à orientação sexual. Como diz na própria resolução do CFP questionada no processo, “na sociedade há “inquietação” em torno de práticas sexuais desviantes”. A consequência que isso gera é que pessoas começarão a procurar essa “cura gay” por coerção da família e/ou da sociedade. Um espaço perfeito para que aflore o preconceito e discriminação ainda mais na cultura social.

 

Por isso chamo a liminar de atitude irresponsável.

Ademais, digo também que essa abordagem em questão não é novidade e já foi usada em muitos lugares. Ela não surte efeito e possibilita a promoção de novos traumas. Essa é a verdade, meus amigos.

 

A chance é que essa liminar não irá durar muito tempo, pois como disse, não tem embasamento. Isso são resquícios de velhos pensamentos produzidos por culturas que espalhavam desinformações, ignorância e prepotência. Mas que já estão sendo levados pelo tempo.

 

À medida que novas mentes vão nascendo no mundo, novos conceitos nascem também. Os conceitos do meu Bisavô e a cultura social que ele vivia não foram os mesmos que meu avô viveu, que também não foram os do meu pai, o que por sua vez não são os mesmos conceitos e cultura social que eu vivo.

 

A sociedade está em constante evolução e o passo que estamos dando é o de compreensão, aceitação e respeito. Aquele que se agarra ao julgamento e preconceito perece com o tempo e o orgulho, passando a se sentir deslocado no tempo e na sociedade em que vive. Sentindo que seus anos se passaram.

 

Apesar de estar vivo!

 

OPINIÃO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Victor Assunção Moreira

Psicólogo

 

 

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